Sarcopenia e uso de creatina em idosos

Por Paula Amorim e Silvia Ramos

A sarcopenia é uma doença multifatorial caracterizada por uma redução progressiva da massa muscular, força (dinapenia) e desempenho físico. A etiologia da sarcopenia é complexa e envolve alterações na morfologia das fibras musculares, atividade neuromuscular, cinética de proteínas, endocrinologia e inflamação. É um distúrbio muscular generalizado e progressivo, associado ao aumento de quedas, fraturas, incapacidade funcional, mortalidade e atualmente é classificada como doença (cid-10- m62.5).

Sua prevalência em pessoas com 60 a 70 anos é relatada em 5 a 13%, enquanto aumenta para 11 a 50% em pessoas maiores de 80 anos, a depender dos critérios utilizados para o diagnóstico.

A sarcopenia pode levar a incapacidade, fragilidade e várias outras doenças. As principais condições que podem estar associadas a sarcopenia são: desnutrição, caquexia (câncer, cardiomiopatia congestiva e doença renal em estágio terminal), síndrome de fragilidade e obesidade sarcopênica.

Nas últimas décadas, vários estudos concentraram seus esforços no desenvolvimento de estratégias e recomendações para prevenir a sarcopenia. Uma intervenção nutricional potencial para a sarcopenia é a suplementação de creatina. Importante ressaltar que não existem evidências de que a creatina afete a função renal em sujeitos saudáveis, inclusive em idosos.

Um estudo publicado no The Journal of Frailty and Aging, realizado em 2016, mostrou que a suplementação de creatina (5 g / dia) durante 14 semanas de treinamento resistido em adultos frágeis não resultou em efeito prejudicial sobre a função renal ou hepática.

Um estudo publicado no Experimental Gerontology, realizado em 2014 com 60 mulheres idosas teve como objetivo examinar a eficácia da suplementação de creatina, associada ou não ao treinamento de resistência. O estudo durou 24 semanas com treinamento resistido. As idosas foram divididas em 4 grupos: placebo, com suplementação de creatina (5g/d), placebo com treinamento resistido, e suplementação de creatina(5g/d) com treinamento resistido.

Foram avaliadas no início e após 24 semanas. Em conclusão, a suplementação de creatina a longo prazo combinada com treinamento de resistência foi capaz de melhorar a inclinação apendicular massa e função muscular, mas não massa óssea, em mulheres idosas. A suplementação de creatina propriamente dita levou a melhorias na massa magra apendicular, mas não a função muscular, quando comparada com o placebo. Esses achados apontam o potencial terapêutico da suplementação de creatina, especialmente em associação com resistência para compensar o declínio da massa muscular e da função muscular no envelhecimento.

Uma meta-análise publicada no Medicine & Science in Sports & Exercise, realizada em 2014 com 357 idosos (idade média 63.6 ± 5.9 anos), teve como resultado uma maior massa muscular e força com a suplementação de creatina comparado com o grupo que apenas realizou exercício resistido.

Outro estudo de revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados de suplementação de creatina durante o treinamento de resistência em idosos, publicado no Journal of Sports Medicine, realizado em 2017 com 721 participantes (homens e mulheres; com idade média de 57 a 70 anos em todos os estudos) randomizados para suplementação de creatina ou placebo durante o treinamento de resistência. A suplementação de creatina resultou em maiores aumentos na massa de tecido magro e força muscular.

Por fim, uma revisão de 2019, publicada no Jornal Frontiers in Nutrition concluiu que está bem estabelecido que o treinamento resistido é uma intervenção eficaz no estilo de vida para melhorar o envelhecimento da massa muscular, força e acúmulo ósseo. Evidências acumuladas indicam que a suplementação de creatina, com um treinamento persistente, tem efeitos anti-sarcopênicos e antidinapênicos

A suplementação de creatina mostrou potencial para melhorar o mineral ósseo em alguns estudos, mas não em todos, e parece afetar a ativação das células envolvidas na formação e reabsorção óssea. A creatina tem o potencial de diminuir o risco de quedas experimentadas por adultos idosos, o que reduziria posteriormente o risco de fratura. Finalmente, evidências preliminares sugerem que a creatina pode ter efeitos anti-inflamatórios durante períodos de estresse metabólico elevado, como durante exercícios aeróbicos prolongados/intensos. A creatina não parece reduzir os indicadores de inflamação durante o treinamento de resistência. Pesquisas futuras devem examinar, de maneira objetiva, os efeitos de segurança e de longo prazo da suplementação de creatina em propriedades musculares, ósseas e inflamatórias em várias populações durante o envelhecimento e com a sarcopenia.

Referências 

CANDOW, Darren G.. Effectiveness of Creatine Supplementation on Aging Muscle and Bone: Focus on Falls Prevention and Inflammation. Journal Clinical Medicine. Canadá, p. 1-15. 11 abr. 2019.

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Gualano, B., Macedo, A. R., Alves, C. R. R., Roschel, H., Benatti, F. B., Takayama, L., … Pereira, R. M. R. (2014). Creatine supplementation and resistance training in vulnerable older women: A randomized double-blind placebo-controlled clinical trial. Experimental Gerontology, 53, 7–15. doi:10.1016/j.exger.2014.02.003

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