Resumo e análise crítica – Associations of egg consumption with cardiovascular disease in a cohort study of 0.5 million Chinese adults

As doenças cardiovasculares (DCV) são as principais causas de morte no mundo todo, inclusive na China. Fatores modificáveis, como tabagismo, álcool, inatividade física e fatores dietéticos, desempenham papéis cruciais no desenvolvimento das DCV, assim como fatores não modificáveis, como idade e sexo. Os ovos são uma fonte importante de colesterol dietético, mas também contêm proteínas de alta qualidade, muitas vitaminas e componentes bioativos, além de fosfolipídios e carotenoides.

Até então, os estudos feitos se mostraram inconsistentes e a maioria deles observou associações insignificantes entre o consumo de ovos e doenças coronarianas ou acidentes vasculares cerebrais (AVC). Apenas o Life Span Study, no Japão, mostrou resultados. Descobriu-se que o consumo diário de ovos estava associado com uma diminuição em 30% de mortes causadas por derrames, quando comparado com o consumo ocasional do mesmo. Este estudo, porém, tinha amostras de tamanho relativamente menor ou menos casos, eram de potência muito baixa para obter estimativas de efeitos precisos e não conseguiam examinar as associações com subtipos de AVC, especialmente AVC hemorrágico.

Diretrizes dietéticas da Sociedade Chinesa de Nutrição, recomendam que adultos saudáveis consumam de 40 a 50g de ovo (aproximadamente 1 ovo) por dia, com ênfase especial na gema do ovo, e recentemente cancelaram o limite máximo de colesterol, assim como o American Heart Association e a Sociedade Brasileira de Cardiologia.

O presente estudo China Kadoorie Biobank (CKB), teve como objetivo examinar as associações do consumo de ovos com DCV, incluindo DIC, eventos coronarianos maiores (ECM), acidente vascular cerebral hemorrágico e acidente vascular cerebral isquêmico, no estudo. Os dados  foram  analisados de uma coorte prospectiva de cerca de 0,5 milhões de adultos.

MÉTODOS

O estudo contou com 512.891 participantes, entre 30 e 79 anos de idade, de 10 locais de pesquisa geograficamente diversificados (5 urbanos e 5 rurais) por toda a China. Os participantes foram recrutados no período de 2004 a 2008 e acompanhados desde então, para determinar suas taxas de morbidade e mortalidade. Cerca de 5% dos participantes foram selecionados de forma aleatória para participar de re-pesquisas a cada 5 anos após a conclusão da pesquisa de base.

Como critério de exclusão para o estudo, foram considerados históricos médicos de câncer (n=2.577), doença cardíaca (n=15.472), acidente vascular cerebral (n=8.884) e diabetes (n=30.300). Também foram excluídos três indivíduos cujas informações pessoais não foram entregues aos pesquisadores. Ao total, 461.213 participantes foram elegíveis para as análises finais.

No início do estudo, foi aplicado um questionário para os participantes sobre a frequência do consumo habitual de ovos dos últimos 12 meses. Após a avaliação do questionário base, 926 participantes foram escolhidos aleatoriamente e entrevistados repetidamente no período de um ano (intervalo médio de 5,4 meses). Perguntas semelhantes ao primeiro questionário foram reaplicadas (2008, 2013 e 2014) e os resultados durante essa reavaliação foram usados para estimar o valor usual para cada categoria.

No questionário de base foram, também, coletadas informações sociodemográficas (idade de recrutamento, sexo, educação, renda familiar, estado civil), estilo de vida, histórico médico (hipertensão, diabetes, uso de drogas anti-hipertensivas, uso de aspirina e estatinas entre aqueles com hipertensão) e histórico familiar de ataque cardíaco e acidente vascular cerebral. Três dietas padrão foram identificadas e nomeadas como nova afluência, dieta tradicional do sul e dieta tradicional do norte.

Pessoas treinadas fizeram as medidas do peso corporal, altura, circunferência do quadril e cintura, além de pressão arterial, usando instrumentos calibrados. Para hipertensão foram considerados os valores de pressão sistólica maior ou igual a 140mmHg e pressão diastólica maior ou igual a 90mmHg ou uso de drogas anti-hipertensivas autorreferidas.

Para a coleta das informações de morbidade e mortalidade, foram usados os registros locais de doença e morte, verificados pelo sistema nacional de seguro de saúde, com ligação a todas as hospitalizações, ou averiguadas através de acompanhamento ativo. As doenças foram codificadas de acordo com a Classificação de Doenças, 10ª Revisão.

Para estimar os coeficientes de risco, foi utilizado o modelo de Cox e ICs de 95% para a associação entre o consumo de ovos e doenças cardiovasculares, com estratificação do local de pesquisa e coorte de nascimento (em intervalos de 5 anos) e com a idade atingida como escala de tempo subjacente. A suposição de risco proporcional foi examinada testando o nível de significância dos termos de interação entre consumo de ovos e tempo.

O modelo para as tabelas de comparação foi elaborado de acordo com a idade de recrutamento, sexo, nível de escolaridade, renda familiar, estado civil, consumo de álcool, tabagismo, atividade física, IMC, relação cintura-quadril, prevalência de hipertensão, uso de aspirina, histórico familiar de doenças cardiovasculares, ingestão de suplementos multivitamínicos e padrão alimentar.

Para analisar a robustez dos resultados, foram realizadas diversas análises de sensibilidade, excluindo casos de mortes nos dois primeiros anos de acompanhamento, ajustando a energia diária de ingestão, os níveis de frequência de outros 11 grupos alimentares, padrão alimentar incorporando o consumo de ovos, uso simultâneo de aspirina e estatinas, níveis de hipertensão prevalentes. Também foram avaliadas as associações entre consumo de ovos e doenças cardiovasculares de pacientes diabéticos. Além disso, consideraram o significado da interação pelo teste de razão de probabilidade, comparando modelos com e sem termos de interação entre a variável estratificada e o consumo de ovos. Todas as análises estatísticas foram realizadas com Stata versão 14.0. Os resultados estatísticos foram definidos em bicaudal p<0,05.

RESULTADOS

Entre os 461.213 participantes elegíveis, a idade média foi de 50,7 anos (41% homens); cerca de metade deles consumia ovos de 1 a 3 vezes por semana. Comparados com os não consumidores (aqueles que nunca ou raramente consumiram ovos), os consumidores diários eram mais propensos a ter um nível mais alto de educação e renda familiar, a ter um padrão alimentar rico e a tomar suplementos de multivitaminas; também, os que consumiam ovos diariamente tinham menos chances de desenvolver hipertensão.

Ao adicionar um ovo por semana nas dietas, percebeu-se uma diminuição em 8% para chance de AVC hemorrágico. Resultados semelhantes foram encontrados para DCV e mortalidade por AVC hemorrágico. Associações entre mortalidade por DCI e AVC isquêmico foram insignificantes. Análises posteriores mostraram que o consumo de ovo não teve relação com morbidade e mortalidade para DCV entre os pacientes diabéticos.

Outras análises foram conduzidas para examinar se haviam associações entre o consumo de ovo e DCV modificados por características de base, mas nenhuma interação significante foi encontrada ao analisar variáveis como idade, consumo de álcool e atividade física.

Diferenças significativas foram encontradas, com associações mais fortes entre os fumantes do que não fumantes. Para os consumidores diários de ovos, associações inversas pareciam ser maiores entre os que possuíam nível de educação superior para IDH e aqueles com maior renda por AVC isquêmico.

DISCUSSÃO

A partir do estudo, os autores descobriram que o consumo de ovos mais frequente foi associado com menor incidência para DCV, DIC, EC, ECV hemorrágico e AVC isquêmico, independente de possíveis fatores de confusão. Consumidores diários possuíam 26% menos chances para risco de AVC hemorrágico.

A última meta-análise incluiu sete estudos prospectivos e constatou que o consumo de até um ovo/dia não teve associação significativa com CHD (HR 0,97, IC 95% 0,88 a 1,07), comparado ao consumo de dois ovos/semana. Neste estudo, foi observada uma redução em 12% para risco de IHD entre aqueles que consumiam ovos diariamente.

Também houve uma associação entre o maior consumo de ovos e a redução do risco de subtipos de AVC, e participantes que consumiram menos de um ovo por dia tiveram menor risco de AVC hemorrágico e isquêmico quando comparados com os não consumidores.

Os autores acharam uma associação implicando que componentes do ovo podem ter um efeito favorável na saúde cardiovascular. Fosfolipídios derivados do ovo podem melhorar os níveis de HDL, retardando o processo de aterosclerose. Além disso, as proteínas de alta qualidade nos ovos resultam em maior saciedade, menor quantidade de glicemia pós-prandial e insulinemia, e reduzem a quantidade de comida ingerida em pacientes saudáveis e com sobrepeso.

CONCLUSÃO

Os autores concluem que os achados sugerem que um consumo diário de ovos esteve associado com um menor risco de DCV, IDH, ECM, AVC hemorrágico e isquêmico entre os chineses de meia idade.

 

 

COMENTÁRIOS

O estudo apresentou pontos fortes, como ser um projeto de coorte prospectiva, ter uma amostra grande, ajuste para potenciais fatores de risco para DCV e mais estimativas para os subtipos de AVC. Porém, como os próprios autores destacam, as informações para o consumo de ovos foram obtidas através apenas de um questionário de frequência alimentar qualitativo, e os valores médios apresentados foram estimados a partir de poucas re-pesquisas feita com apenas parte da amostra. Os hábitos alimentares dos participantes podem ter mudado durante o estudo, e o questionário feito pode não refletir necessariamente nos anos que se seguiram. A não avaliação dos hábitos ao longo do tempo sugere uma falha no estudo, já que todos os participantes poderiam ter tido mudanças alimentares que representem alterações significativas no estudo.

Além disso, este estudo reflete apenas resultados válidos para a China. Diferentes etnias apresentam maior ou menor risco para o desenvolvimento das doenças estudadas. Portanto, os resultados deste estudo não são necessariamente aplicáveis para o restante da população mundial, já que o perfil genérico não foi explorado.

As recomendações   das sociedades de nutrição e cardiologia de diferentes países passaram por reformulação nos últimos anos e o consumo de ovos, visto anteriormente como um alimento rico em colesterol e diretamente relacionados às DCV não está mais em pauta. Desta forma, estudos que objetivam avaliar o impacto de ovos na saúde são cada vez mais bem-vindos.

Ovos são fonte de proteínas de alta qualidade, que resulta em aumento da saciedade, glicemia e insulinemia pós-prandial, diminuindo a ingestão de alimentos em indivíduos com sobrepeso. Além disso, o ovo contém antioxidantes, ajuda no combate da inflamação e aterosclerose. Também, os carotenoides presentes no mesmo têm maior biodisponibilidade do que carotenoides presentes em vegetais e frutas, e sua absorção pelo organismo é maior. Todos estes fatores estão relacionados com o risco de DCV e AVC e, apesar disso, não foram explorados pelos autores.

Os benefícios do consumo de ovos não foram observados em indivíduos com diabetes.  Isso pode ser explicado pelas múltiplas alterações vasculares, especificas desta doença, que interferem em possíveis benefícios a este grupo.

No entanto, sabe-se que os hábitos alimentares das pessoas influenciam o surgimento de todas as doenças que foram abordadas. Por isso, estudar apenas a influência do ovo, e não a dieta completa dos participantes, pode ter como consequência a aparição de resultados parciais.

 

Comentado por

Beatriz Mennella
Estagiária de Nutrição do Insira Educacional

 

Silvia Ramos
Nutricionista CRN3/10908

 

REFERÊNCIA

QIN, Chenxi et al. Associations of egg consumption with cardiovascular disease in a cohort study of 0.5 million Chinese adults. Heart, [s.l.], p.1-8, 21 maio 2018. BMJ. http://dx.doi.org/10.1136/heartjnl-2017-312651. Disponível em: <http://heart.bmj.com/content/heartjnl/early/2018/04/17/heartjnl-2017-312651.full.pdf>. Acesso em: 04 jun. 2018.

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