Relação do metabolismo glicídico com a Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS)

A Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) caracteriza-se como uma redução ou obstrução total do fluxo de ar, com duração de, pelo menos, 10 segundos. Quando ocorre frequentemente, pode causar hipóxia intermitente crônica (HIC) e fragmentação do sono. Este quadro estimula o Sistema Nervoso Simpático e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal durante o sono, o que causa estresse oxidativo e inflamação sistêmica. Estes, por sua vez, levam a alterações metabólicas e geram ou aumentam anormalidades pré-existentes, como resistência à insulina, diabetes mellitus (DM) tipo 2, hipertensão arterial sistêmica (HAS) e danos no endotélio vascular, que podem causar doenças cardiovasculares (DCV).

 

Ativação do sistema nervoso simpático (SNS)

O SNS possui papel importante na regulação do metabolismo da glicose e lipídeos, além de contribuir na resistência insulínica. A SAOS tem mostrado ser estimulante na atividade simpática, tanto durante o sono ou quando o paciente se encontra acordado. Esta ativação parece ser influenciada pela hipóxia noturna e o constante despertar do sono. Os mecanismos que ativam o SNS estimulam a lipólise e lipotoxicidade, mediadas pelas catecolaminas. Os ácidos graxos liberados durante a lipólise diminuem a captação de glicose pela insulina, consequência da interrupção da sinalização insulínica no músculo esquelético, causando uma disfunção na célula beta graças à lipotoxicidade. Também, as catecolaminas estimulam a mobilização de glicogênio e inibem, por consequência, a captação de glicose no músculo. Este efeito causa aumento na secreção de glucagon e redução na secreção de insulina, além de estimular a gliconeogênese e glicogenólise no fígado.

 

Disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA)

O cortisol possui efeito inibitório da secreção insulínica; e a HIC, juntamente com o constante despertar, ativa o eixo HHA, que resulta na elevação de glicocorticoides. Estes, por sua vez, possuem efeito direto na resistência e secreção insulínica. Como consequência, estes efeitos causam aumento da lipólise, inibição da translocação de GLUT 4 nas células musculares, supressão da síntese de glicogênio e aumento na gliconeogênese.

 

Inflamação Sistêmica

Os pacientes com SAOS apresentam altos níveis de proteína C-reativa, independente de obesidade, e estes níveis são proporcionais à gravidade da SAOS. Também, os níveis plasmáticos de IL-6 e TNF-alfa são mais elevados nestes pacientes, havendo uma relação entre os níveis de IL-6 e resistência insulínica.

Evidências apontam que as citocinas inflamatórias IL-6, TNF-alfa e IL-1 beta estão evolvidas na fisiologia do sono. Estudos feitos com IL-6 e TNF-alfa apontam um papel fundamental na mediação dos principais sintomas da SAOS. O tratamento com pressão contínua e positiva das vias aéreas (CPAP), realizado durante um mês, mostrou redução dos níveis de proteína C-reativa e IL-6.

 

SAOS, resistência insulínica e diabetes mellitus tipo 2

Pacientes com SAOS possuem alta prevalência de DM tipo 2 e outras desordens metabólicas relacionadas, variando de 29 a 63%, de acordo com os critérios adotados. Também é estimado que 86% ou mais dos pacientes obesos com diabetes possuem SAOS. Existem cada vez mais evidências que confirmam uma associação entre SAOS e alterações no metabolismo glicídico. Estudos indicaram que pacientes com SAOS têm níveis mais elevados de glicemia de jejum, insulina e hemoglobina A1C, mesmo se comparados com indivíduos de mesmo peso e sem SAOS.

Dois estudos clássicos mostraram a relação entre SAOS, resistência insulínica e DM tipo 2, independente da obesidade. O Sleep Heart Health Study apontou uma associação entre dessaturação de oxigênio durante o sono e uma elevada concentração de glicose plasmática de jejum de duas horas. O Wisconsin Sleep Study estudou a ligação entre apneia do sono e DM tipo 2, porém os dados não mostraram uma significante relação do desenvolvimento de DM tipo 2 e SAOS no período de 4 anos. Os pesquisadores concluíram que a diabetes é mais predominante em indivíduos com SAOS, e a sua relação com DM tipo 2 independe de outros fatores de risco.

O tratamento feito com CPAP em associação à resistência insulínica mostra resultados controversos. Efeitos em longo prazo verificaram melhorias no metabolismo da glicose e resistência à insulina ao fim de 4 meses de tratamento, apesar de o peso corporal ter se mantido estável.

 

Conclusão

Existem diversas evidências que apontam para uma associação entre SAOS, resistência insulínica e intolerância à glicose, principalmente quando manifestada nas formas moderada e grave. Também, é estudada a influência da duração e qualidade do sono na diabetes mellitus, sugerindo que parâmetros do sono sejam usados como parte do tratamento para DM.

Além disso, são necessários mais estudos para que seja possível uma explicação da ligação entre SAOS e os distúrbios glicídicos. Da mesma maneira, também são necessários maiores estudos para estabelecer validações da CPAP quanto à sensibilidade à insulina e tolerância à glicose.

 

 

Beatriz Mennella
Estagiária de Nutrição do Insira Educacional

 

Silvia Ramos
Nutricionista CRN3/10908

 

 

REFERÊNCIA

FIGUEIREDO, Felipe de O.; PIRES, Maria Lucia E.; LEMES, Lucas N. A.. Distúrbios do metabolismo glicídico na síndrome da apneia obstrutiva do sono. 2016. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/303720371>

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