Obesidade infantil: qual o papel da família?

peso

A obesidade é uma doença compreendida pelo acúmulo excessivo de tecido adiposo de maneira que possa prejudicar a saúde de um indivíduo, ocorrendo também em crianças. A obesidade infantil é determinada a partir do IMC equivalente ou superior ao percentil 90. Pode ser considerada como uma associação entre fatores genéticos, endócrinos, nutricionais, metabólicos, psicossociais e culturais, o que justifica a denominação de doença multifatorial.

O fato da criança ser obesa pode ser fator predisponente para que essa doença a acompanhe durante a adolescência, chegando até a vida adulta e trazendo com ela algumas comorbidades associadas, como: diabetes tipo 2, hipertensão, doenças da vesícula biliar, esteatose hepática não alcoólica, hiperlipidemia, apneia do sono, complicações ortopédicas, dentre outros distúrbios metabólicos.

Em alguns casos, a criança se sente diferente das outras do seu grupo e por vezes também é excluída pelos colegas, fato que podem levá-las ao isolamento, gerando problemas psicológicos e prejudicando o aprendizado e a interação social.

No que diz respeito ao papel da família em relação à doença, é possível verificar que atualmente, a alimentação das crianças sofreu grandes mudanças sendo muitas vezes realizada com alimentos industrializados, ricos em gordura saturada e colesterol, elevada ingestão de bolachas recheadas, consumo excessivo de doces e bebidas açucaradas, salgadinhos, dentre outros alimentos considerados mais práticos para o dia a dia. Um dos fatores para que essa modificação ocorresse foi a inserção das mulheres no mercado de trabalho e o fato de que muitos pais não colaboram na divisão das tarefas domésticas (até mesmo por uma questão cultural), deixando somente a cargo das mães a responsabilidade da preparação das refeições da família, o que justifica a recorrente uso desses produtos processados e ultraprocessados que são deletérios à saúde e podem contribuir significativamente para o aumento da obesidade infantil.

Esses produtos também são utilizados pelos pais como forma de compensar a ausência deles durante as horas de trabalho ou para “premiar” um bom comportamento dos filhos.

As refeições que deveriam ser realizadas juntamente com a família, todos sentados à mesa, como um momento de prazer e bem-estar em alguns casos é substituída por refeições realizadas pelas crianças sozinhas em frente à televisão ou até mesmo com a família, mas com a televisão ligada, o que se torna ambiente propício para a ingestão de alimentos de forma excessiva, pois as crianças não se atentam aos alimentos que estão ingerindo, nem a porção ingerida de tal alimento.

Outro ponto a destacar é a falta de oportunidade para as crianças brincarem na rua ou em parques, em razão de questões de segurança pública, por exemplo, o faz com que os pais cada vez mais ofereçam aos filhos brincadeiras que possam ser realizadas em casa, como videogames, jogos em celulares, tablets, computadores e ainda o uso de televisão, o que torna cada vez mais sedentárias, contribuindo muito para o aumento da propensão à obesidade.

O aleitamento materno exclusivo no mínimo até os 6 meses de idade é apontado por algumas pesquisas como benéfico também para a prevenção de obesidade, pois o leite humano contém leptina, que pode realizar um mecanismo regulador no metabolismo do lactente, isso porque esse hormônio tem a função de inibir o apetite e as vias anabólicas e estimular as vias catabólicas. Crianças que tiveram maior ingestão de leite materno no início da vida obtiveram concentrações de leptina mais favoráveis em relação à sua massa gorda.

Algumas crianças sofrem desmame antes de 6 meses de vida, devido à falta de orientação da mãe sobre os benefícios do leite materno e até mesmo orientações sobre como proceder uma correta mamada. Mas algumas mães optam pelo desmame do leite humano pela praticidade das fórmulas infantis, ainda mais quando essas são preparadas como mingaus, com produtos à base de amido de milho ou outros componentes, o que torna a mamadeira de mais fácil aceitação pela criança, entretanto com um risco aumentado de obesidade, pois além da privação do leite materno e todos os seus benefícios, a criança ainda pode ser exposta à fórmulas infantis e a produtos com elevado aporte calórico ou elevado teor de açúcar, que podem ser adicionados aos leites.

Tendo em vista todos os fatores anteriormente citados, é possível concluir que a família tem papel fundamental na formação dos hábitos alimentares das crianças e além disso causas genéticas associadas à uma alimentação inadequada podem colaborar para o desenvolvimento da obesidade infantil. É extremamente importante que os pais estimulem bons hábitos alimentares nas crianças desde pequenas para que as preferências alimentares no decorrer da vida sejam sempre voltadas para escolhas saudáveis.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), publicou em janeiro desse ano o Relatório da Comissão pelo Fim da Obesidade Infantil, cujo objetivo é traçar recomendações aos governos voltadas para reverter o crescimento de sobrepeso e obesidade em crianças menores de 5 anos. Segundo a OMS ao menos 41 milhões de crianças nessa faixa etária são obesas ou apresentam sobrepeso, o maior aumento é proveniente de países de baixa renda e média. Esse relatório traz 6 principais recomendações para os governos, a saber:

1) Implementar programas abrangentes que promovam a ingestão de alimentos saudáveis e reduzam a ingestão de alimentos pouco saudáveis e bebidas adoçadas com açúcar por crianças e adolescentes (por meio, por exemplo, da tributação efetiva sobre as bbidas adoçadas com açúcar e redução da propaganda de alimentos não saudáveis).

2) Implementar programas abrangentes que promovam a atividade física e redução do sedentarismo em crianças e adolescentes

3) Integrar e reforçar as orientações para a prevenção de doenças não transmissíveis, com orientação atualizada sobre cuidados pré-natais (para reduzir o risco de obesidade infantil ao prevenir peso alto ou baixo no nascimento, prematuridade e outras complicações na gravidez).

4) Fornecer orientações sobre e suporte para uma dieta saudável, sono e atividade física na infância; promover hábitos saudáveis; e garantir que as crianças cresçam de forma adequada e desenvolvam hábitos saudáveis (promovendo o aleitamento materno; limitando o consumo de alimentos ricos em gordura, açúcar e sal; assegurando a disponibilidade de alimentos saudáveis e atividade física).

5). Implementar programas abrangentes que promovam ambientes escolares saudáveis, saúde e conhecimentos de nutrição, além de atividade física entre crianças em idade escolar e adolescentes (por meio do estabelecimento de normas para a merenda escolar; eliminando a venda de alimentos e bebidas não saudáveis e incluindo nutrição e educação física de qualidade no currículo base).

6) Fornecer serviços de gestão de peso, baseados na família e com diversos componentes, para crianças e jovens obesos.

Como forma de contribuir para a redução do consumo de alimentos industrializados, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), proibiu em março de 2016 a publicidade direcionada a crianças, já que muitas empresas estimulam o consumo de alimentos prejudiciais à saúde delas e que podem contribuir com a obesidade.

Conheça a matéria referente ao Relatório da Comissão pelo Fim da Obesidade Infantil, 2016, da OMS: http://goo.gl/rhfY6i. E também a matéria do Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) sobre a proibição do STJ, da publicidade direcionada a crianças: http://goo.gl/pbWsmh.

Escrito por:
Camila Cristina da Silva Santos
Estagiária de Nutrição

Sílvia Ramos
Nutricionista
CRN-3: 10.908

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