Mecanismos da fome e saciedade

Por Luiza Thimoteo Cabral e Silvia Ramos

 Os estudos sobre a fome e saciedade vem aumentando cada vez mais com intuito de compreender o comportamento alimentar individual e quais os fatores que exercem influência sobre ele como: seleção, aquisição, conservação, preparo e consumo dos alimentos. Segundo Bays (2009) existem 9 tipos de fome, dentre os tipos estão: fome visual, olfativa, palatável, estômago, fisiológica, mental e emocional, e consequentemente diferentes respostas fisiológicas para cada uma delas.

   A fome e a saciedade não devem ser vistas apenas como um fenômeno biológico, pois é um conjunto de processos que vincula a biologia e o ambiente externo. Esses processos são divididos em dois, um deles chamado processos tônicos que são influências duradouras sobre a alimentação que surgem da atividade do tecido, do metabolismo básico e o outro é denominado os processos episódicos que estão associados ao consumo periódico alimentar. Neste caso, são exemplificados pelas oscilações e alterações de acordo com secreção dos peptídeos de apetite pós-prandiais. Esses processos juntos, são mediados pelo cérebro e dão origem ao padrão alimentar e ao número e tamanho das refeições que indivíduo realiza.

    Além disso, a necessidade de energia que o organismo exige varia com a taxa metabólica de repouso que demonstrou estar associada ao tamanho das refeições e ao consumo de energia tanto em indivíduos obesos, como em eutróficos. Assim como a taxa metabólica, a intensidade de atividade física e consequentemente o comportamento sedentário também mostram ter influência no apetite. O apetite é regulado por duas sensações: a fome, denotando a vontade de comer causada pela necessidade homeostática de energia ou pela influência do ambiente que definem o comportamento alimentar e a saciedade, que se refere a durante e após o consumo da refeição, e que leva à redução da fome.

   Para mensurar o apetite, a fome hedônica é mais estudada. Ela está relacionada à mecanismos de recompensa e de prazer, sendo que o gostar de comer representa o prazer percebido ou o grau de sensibilidade/atratividade da comida. Indivíduos obesos ou predispostos à obesidade podem demonstrar uma resposta incongruente que reflete desconexão entre mecanismos de controle homeostáticos e hedônicos.

   A duração da saciedade depende de múltiplos fatores, como as propriedades físico químicas do alimento, incluindo densidade da energia, peso, volume, composição dos macronutrientes, tamanho de partículas e solidez, e as suas características sensoriais, como palatabilidade, gosto, odor e aparência. Assim, após o alimento ser consumido, o modo como os nutrientes são absorvidos, utilizados e armazenados, pode ser um determinante poderoso do comportamento alimentar. A interação entre esses fatores é denominada cascata da saciedade, que engloba dois processos distintos: saciedade e saciação que gera a sensação de satisfação após o término da refeição.

    Sabe-se que a saciedade pode ser medida através de classificações subjetivas de apetite, biomarcadores como peptídeos relacionados ao apetite como por exemplo a Grelina, Insulina, Colecistocinina (CCK), Peptídeo semelhante a glucagon 1 (GLP-1) e Peptídeo YY (PYY), entre outros. Já a saciação é um termo usado para descrever a inibição dentro da refeição, ou seja, os processos que levam a uma refeição ao fim, o tamanho da refeição pode ser medido com sensibilidade em condições controladas de laboratório como uma medida do comportamento alimentar. Apesar de estarem integradas, a saciedade e a saciação necessitam serem avaliadas separadamente.

    Um dos métodos utilizados em estudos para avaliação subjetiva do apetite é através da escala analógica visual (EVA), já utilizada em diversos estudos, com essa escala é possível quantificar o apetite, para isso é necessário realizar perguntas geralmente dos quatro temas: fome, plenitude, perspectiva após o consumo e o desejo de comer.

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    Outra distinção importante diz respeito aos processos explícitos, que são aqueles que envolvem apreciação consciente dos alimentos e fornecem uma avaliação racional. Já os processos implícitos que são aqueles que ocorrem secretamente, abaixo do nível de consciência e que afetam o comportamento sem consciência, diz respeito ao núcleo aspectos motivacionais do comportamento de busca de recompensa.

     Portanto, o conhecimento dos mecanismos que envolvem a fome e a saciedade auxiliam no atendimento ao paciente, compreendo-o como um todo, levando em consideração ele ser um reflexo de vínculos íntimos entre processos biológicos, psicológicos e comportamentais e não apenas o comportamento alimentar, para assim reeducar e gerar mudanças de hábitos. Este estudo concluiu que há necessidade de desenvolver diretrizes metodológicas para garantir a coleta de dados consistentes e confiáveis para medir o apetite e os fatores que influenciam o comportamento alimentar. Para isso são necessários avanços tecnológicos para melhorar os métodos de avaliação e diminuir os erros de interpretação nos estudos.

Referências:

BAYS, J. C. Mindful Eating: a guide to discovering a healthy and joyful relationship with food. Shambala. Boston & London, 2009.

GIBBONS, Catherine; BLUNDELL John E. Quantifying Appetite and Satiety. In: Krentz A., Weyer C., Hompesch M.  Translational Research Methods in Diabetes, Obesity, and Nonalcoholic Fatty Liver Disease. Springer, 2019. 121-140 p. Disponível em: https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-030-11748-1_5

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