Ingestão de Selênio e Hipotiroidismo

Por Paula Amorim e Silvia Ramos

No último dia 25 de maio foi o dia internacional da tireoide. Entre todos os tecidos, a glândula tireoide tem a maior concentração de selênio, o qual é armazenado nos tireócitos.

O selênio está presente nas selenoproteínas: deiodinases (DI1, DI2), glutationa peroxidase (GPx1, GPx3, GPx4) e tioredoxina redutases (TR1, TR2).

Também é utilizado como cofator para três dos quatro tipos conhecidos de deiodinases do hormônio tireoidiano. E participa de várias reações enzimáticas necessárias para regular a homeostase dos hormônios da tireóide.

A ingestão adequada de selênio é necessária para o funcionamento normal dos tireócitos e na biossíntese e armazenamento do hormônio tireoidiano. No entanto, existe o risco de superdosagem. Existem grandes vantagens em suplementar indivíduos com deficiência de selênio, mas há riscos específicos à saúde naqueles com excesso de selênio.

O hipotireoidismo é muitas vezes difícil de diagnosticar, isso porque a maioria dos sintomas, como fadiga, falta de concentração, pele seca, são inespecíficos e frequentemente atribuídos a outras causas ou ao processo de envelhecimento. Estudos realizados no Brasil demonstraram a influência da raça na prevalência de hipotireoidismo, que foi menor em pessoas negras e pardas. Além disso, foi relatado que o status socioeconômico influenciava o diagnóstico e o tratamento do hipotireoidismo, homens, pardos, negros e indivíduos com baixo nível socioeconômico apresentaram menores frequências de tratamento para hipotireoidismo.

O estado nutricional de Selênio varia em todo o mundo porque o conteúdo dele nos alimentos está relacionado à quantidade presente no solo. Sendo assim, as concentrações plasmáticas de Selênio são variáveis ​​em diferentes populações ao redor do mundo.

Um estudo em São Paulo, relatou que as concentrações plasmáticas de Selênio eram muito baixas em comparação com as observadas em outras populações saudáveis, como EUA, Nova Zelândia e Reino Unido.

O selênio no Brasil pode variar de 20 a 114 µg / dia, ou seja, de baixo a adequado, dependendo da região estudada e o nível socioeconômico da população. Geralmente as principais fontes de selênio são cereais, carnes e peixes. Também avaliaram o conteúdo de selênio em alimentos consumidos em diferentes estados do Brasil e os ingredientes considerados alimentos básicos, como feijão, farinha de trigo, arroz, farinha de mandioca e milho, eram fontes pobres de selênio, enquanto fontes animais, mais caras, eram melhores fontes.

Um estudo realizado no Brasil publicado na Revista Nutrients no ano de 2018 teve como objetivo analisar a associação entre a ingestão de selênio na dieta e o hipotireoidismo subclínico. Nesse estudo, foram analisadas 14.283 pessoas de ambos os sexos, com idades entre 35 e 74 anos. Os dados alimentares foram coletados utilizando um questionário de frequência alimentar previamente validado. O hipotireoidismo subclínico foi categorizado como níveis hormonais estimulantes da tireoide> 4,0 UI / mL e níveis livres de tiroxina do hormônio pró-hormônio limites normais, sem administrar medicamentos para doenças da tireóide.

A prevalência de hipotireoidismo subclínico na amostra estudada foi de 5,4%. E os resultados revelaram uma correlação inversa entre a ingestão de selênio e o hipotireoidismo subclínico. No entanto, o estudo enfatiza que ele tem limitações, isso porque as estimativas da ingestão de selênio foram obtidas de um QFA (Questionário de frequência alimentar), um método amplamente utilizado em grandes estudos epidemiológicos para determinar a frequência de consumo de produtos alimentares específicos em 1 ano. Este método é apropriado para classificar indivíduos de acordo com os níveis de ingestão, contudo, não é considerado o mais adequado para análise de micronutrientes porque tende a superestimar a ingestão. Além disso, como falta precisão, não permite avaliar a adequação dos micronutrientes ingeridos dentro deste período.

A ingestão de nutrientes pode ser melhor estimada usando recordatórios de 24 horas e registros alimentares, porque os valores médios obtidos de vários dias de ingestão alimentar produzem resultados mais seguros e confiáveis.

O estudo sugere que para maior precisão dos níveis de selênio nos participantes, seria necessário o uso de biomarcadores capazes de indicar mais precisamente a condição desses indivíduos, principalmente considerando que há enorme variabilidade dos níveis de Selênio nos alimentos, pois depende exclusivamente das propriedades do solo quais eles foram colhidos. Assim, os níveis de consumo de selênio demonstrados podem não corresponder aos níveis exatos de selênio dos participantes.

Outra limitação importante reside no desenho do estudo, pois é um estudo observacional transversal e pode sofrer limitações inerentes ao desenho observacional. Embora tenha sido ajustado por vários fatores dietéticos e não dietéticos, não avaliaram longitudinalmente o consumo de alimentos dessa população, o que seria mais apropriado. Portanto, por se tratar de um estudo observacional, os resultados encontrados na relação entre selênio e o resultado não podem ser interpretados como relação causal, exigindo que eles fossem confirmados em estudos futuros.

Por fim, ressalta que mais pesquisas são necessárias para confirmar o envolvimento do Selênio no hipotireoidismo subclínico usando metodologias mais precisas de avaliação da dieta e estado nutricional para essa avaliação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ANDRADE, Gustavo; GORGULHO, Bartira; LOTUFO, Paulo; BENSENOR, Isabela; MARCHIONI, Dirce. Dietary Selenium Intake and Subclinical Hypothyroidism: a cross-sectional analysis of the elsa-brasil study.: A Cross-Sectional Analysis of the ELSA-Brasil Study. Nutrients, [s.l.], v. 10, n. 6, p. 693, 30 maio 2018. MDPI AG. http://dx.doi.org/10.3390/nu10060693.

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