Inatividade física: Fator de risco para o câncer de mama

Por Ana Cecília Simões, Luana Amorim e Silvia Ramos

Em 2012, 14 milhões de novos casos de câncer (excluindo o câncer de pele), foram diagnosticados em todo o mundo e estima-se que esse número aumente em 37% até 2025. No Brasil, mais de 470.000 novos casos de câncer ocorreram em 2012, e cerca de 640.000 casos são esperados até 2025.

Nestes mesmo contexto a obesidade, definida como índice de massa corporal (IMC) ≥30 kg / m2, tem tido sua prevalência aumentada progressivamente nas últimas décadas, atingindo 17,4% em homens e 25,2% em mulheres com idade ≥20 anos em 2013. O sobrepeso e a obesidade são respostas comuns em indivíduos expostos a um ambiente obesogênico.

Os sistemas alimentares tiverem uma violenta mudança nas ultimas décadas e são  caracterizados hoje, pela fabricação e venda de produtos ultraprocessados, induzindo hábitos pouco saudáveis à população. Nos países da América Latina, o consumo de produtos ultraprocessados ​​aumentaram 103% entre 2000 e 2013. Neste mesmo período, ocorreu um elevado aumento no IMC entre os adultos nesses países.

Um estudo feito por pesquisadores do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, com o apoio da FAPESP, estimou até que ponto a redução do IMC poderia diminuir a incidência de câncer no Brasil. Os pesquisadores apresentaram também projeções de cânceres potencialmente evitáveis ​​devido ao alto IMC para o ano de 2025.

De acordo com Rezendo e col, existem evidências expressivas de que o sobrepeso e a obesidade estejam relacionados a um aumento do risco de pelo menos 14 tipos de câncer, entre eles: mama (pós-menopausa), corpo do útero, vesícula biliar, rim, fígado, mieloma múltiplo, esôfago (adenocarcinoma), ovário, pâncreas, próstata (estágio avançado), reto, estômago e tireoide. No Brasil, a incidência desses cânceres corresponderam a quase metade de todos os casos de câncer diagnosticados no país, em 2012.

Para quantificar em que medida o IMC elevado contribui para a incidência do câncer no país, foram estimadas frações de cânceres em 2012 e 2025 atribuíveis ao alto IMC (> 22 kg / m2). As frações atribuíveis à população, nomeadas “Population‐attributable fraction” (PAFs), foram calculadas de acordo com o sexo, a idade, o local do câncer e a área geográfica. Em relação às áreas geográficas, foram considerados três níveis de análise: (1) nível de país: Brasil; (2) nível regional: cinco conjuntos de estados (norte, nordeste, centro-oeste, sudeste e sul); (3) nível estadual: 26 estados (por exemplo, São Paulo, Rio de Janeiro) e um distrito federal (Distrito Federal).

Os dados do IMC, foram obtidos através da Pesquisa Nacional de Orçamento Familiar e da Pesquisa Nacional de Saúde realizadas em 2002 e 2013, respectivamente. Ambas as pesquisas foram nacionalmente representativas e coletaram dados de altura e peso da população adulta com idade ≥20 anos.

Foram inclusos no estudo apenas locais de câncer com evidências prováveis, convincentes e suficientes de que estão associados a um IMC elevado, conforme relatado pelo Projeto de Atualização Contínua do Fundo Mundial de Pesquisas do Câncer (WCRF)  e pela Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC).

Para obter o número de casos de câncer atribuíveis ao IMC elevado, aplicou-se as estimativas do PAF de 2002 aos casos de câncer em 2012, assumindo um período de defasagem de 10 anos. Este período de 10 anos tem sido utilizado pela literatura do PAF para explicar o período latente para o desenvolvimento do câncer.

Os resultados deste estudo mostraram que 15.465 ou 3,8% de todos os casos de câncer no Brasil em 2012 foram atribuíveis ao alto IMC, com uma carga maior nas mulheres (10.059 ou 5,2%) do que nos homens (5406 ou 2,6%). Os locais de câncer que mais contribuíram para os casos atribuíveis foram mama, corpo e cólon do útero em mulheres, próstata e fígado, nos homens. Os maiores PAFs para todos os cânceres foram encontrados nos estados mais ricos do país, localizados no sul.

É importante destacar que este estudo possui algumas limitações. O uso de dados do IMC e a incidência estimada de câncer devem ser interpretados com cuidado, o IMC serviu como um proxy para a gordura corporal, mas é necessário reconhecer sua limitação na diferenciação entre tecidos adiposos. Outra questão, é o fato do estudo ter atribuído que os efeitos de um IMC elevado para o risco de câncer, tem em média 10 anos para se manifestar. No entanto, o período latente preciso não está bem estabelecido e pode ser diferente de acordo com o nível do IMC.

É necessário que estes resultados devam ser entendidos como associações, pois o delineamento deste estudo não permite estabelecer relações causais. No entanto, estudos deste tipo são importantes para levantarem hipóteses e para que novas pesquisas possam ser realizadas em outras populações, até se chegar a um consenso.

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