Imagem corporal x compulsão alimentar em pacientes bariátricos

Por Paula Amorim e Silvia Ramos

A cirurgia bariátrica vem sendo considerada como tratamento padrão ouro para obesidade grave. Segundo a SBCBM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica) os critérios de sucesso após o procedimento são:

  • Obesidade controlada: pacientes que atingiram uma Perda do Peso Total > 20% em 6 meses;
  • Obesidade parcialmente controlada: Perda do Peso Total – 10 a 20% em 6 meses;
  • Obesidade não controlada: Perda do Peso Total < 10% em 6 meses.

É importante analisar fatores como satisfação do paciente com o resultado obtido, melhora das doenças associadas independente da perda ponderal e eventual perda ponderal no pré-operatório.

A preocupação excessiva com a aparência e a imagem é definida quando o indivíduo não se enxerga como ele realmente é, sendo classificado como um transtorno de imagem corporal.

Estudo recente publicado no periódico Obesity avaliou a supervalorização da imagem em pacientes pós cirurgia bariátricas com falta de controle do apetite. Nesse estudo participaram 145 adultos (120 mulheres e 25 homens com idade de 18 a 65 anos), que foram submetidos a técnica cirúrgica gastrectomia e foram avaliados em 6 meses após a cirurgia. Os critérios de exclusão incluíram qualquer uso de medicamentos conhecidos por influenciar efetivamente o peso ou a alimentação, a dependência atual de substâncias ou
doenças psiquiátricas graves que requerem tratamento imediato. E o IMC pós- cirúrgico médio (37,7) dos participantes, estava na faixa de obesidade.

Os participantes foram avaliados por terapeutas com treinamento avançado em distúrbios alimentares e de peso. O peso foi coletado na avaliação usando uma balança digital de alta capacidade. O IMC atual (aproximadamente 6 meses no pós-operatório) e o IMC pré-operatório foram utilizados para calcular a alteração do IMC. A porcentagem de perda de peso total foi determinada com base na seguinte fórmula: [(peso pré-operatório) – (peso pós-operatório)] ÷ [(peso pré-operatório)] × 100.

Entrevistas dos participantes foi com base no Exame de Transtorno Alimentar, modificado para pacientes em cirurgia bariátrica. Foi utilizado o “Beck Depression Inventory-Second Edition”, que é uma medida de auto relato de 21 itens amplamente utilizada que avalia a sintomatologia depressiva atual nas duas semanas anteriores.

Avaliou-se também a falta de controle do apetite, que foi definida como sentir uma sensação de dificuldade ou incapacidade de parar de comer ou impedir a alimentação, independentemente da quantidade de alimentos consumidos. A frequência desses episódios alimentares foi avaliada durante os 28 dias anteriores à cirurgia.

Aproximadamente metade dos pacientes que apresentaram falta de controle de apetite frequente nos 28 dias anteriores a cirurgia, alcançaram níveis de supervalorização da imagem 6 meses após a cirurgia. Além disso, associou-se significativamente, a uma maior psicopatologia do transtorno alimentar, e a uma maior sintomatologia depressiva, ou seja, esses indivíduos relataram maiores níveis de comportamento e psicopatologia do transtorno alimentar, maior incapacidade relacionada ao peso e preocupações alimentares e sintomas depressivos maiores. De fato, o grupo com supervalorização de imagem relatou sintomas depressivos na faixa leve, enquanto o grupo sem supervalorização de imagem relatou sintomas depressivos na faixa mínima.

Porém, a supervalorização da imagem não se associou significativamente à idade, sexo, raça tempo de cirurgia ou qualquer uma das variáveis ​​de alteração de peso, incluindo IMC pré-cirúrgico, IMC atual, alteração de IMC ou % de Perda de Peso entre aqueles categorizados com e sem níveis clínicos de supervalorização da imagem.

O estudo, também mostra que a supervalorização da imagem (quando examinada de forma contínua ou categorizada) foi associada a relatos de pior funcionamento em vários domínios da vida (incluindo trabalho ou escola, atividades sociais ou de lazer e responsabilidades familiares ou domésticas) devido a preocupações com peso e alimentação, embora com pequenos efeitos.

A avaliação da supervalorização da imagem pós cirurgia pode fornecer informações clínicas úteis para identificar pacientes com necessidades clínicas potencialmente maiores e podem informar tratamentos mais direcionados, podendo ajudar a informar as necessidades de tratamento de pacientes que sofrem de distúrbios alimentares e características associadas após a cirurgia bariátrica. Por exemplo, indivíduos com supervalorização de imagem após cirurgia bariátrica podem se beneficiar da terapia cognitivo-comportamental.

Os pontos fortes desse estudo incluem a metodologia, ou seja, uso do método rigoroso de entrevista para avaliar comportamentos e psicopatologia dos transtornos alimentares, bem como o uso de instrumentos de auto relato bem estabelecidos para depressão e incapacidade. Além disso, este estudo envolveu indivíduos que foram submetidos à cirurgia laparoscópica de gastrectomia vertical, atualmente o procedimento cirúrgico bariátrico mais  comumente realizado.

Pesquisas futuras são necessárias para examinar o significado prognóstico destes transtornos de imagem e da falta de controle de apetite na população candidata à cirurgia bariátrica. Indicando quais as possíveis consequências de insucesso no procedimento cirúrgico destas pessoas. Além disso, sugere-se que seja replicado em outros procedimentos bariátricos ou para pacientes bariátricos com e sem falta de controle de apetite. abrangendo um tempo maior de acompanhamento.

Referências Bibliográficas:
IVEZAJ, Valentina; et al. Overvaluation of Weight or Shape and Loss-of-Control Eating Following Bariatric Surgery. Obesity. Junho,2019. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/31207166 >
SBCBM. Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica. Consenso bariátrico. Disponível em: <www.sbcbm.org.br>

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