Ferramentas que podem auxiliar o nutricionista a mensurar a ingestão alimentar em crianças e adolescentes com Dificuldade Alimentar

Por Paula Amorim e Silvia Ramos

As dificuldades alimentares (DA) são problema comum na infância e adolescência. A avaliação dietética é muito importante para mensurar o consumo de alimentos e verificar se esse indivíduo apresenta seletividade alimentar. Na prática clínica, muitas vezes observa-se que os cuidadores têm percepção exacerbada da gravidade da DA de seus filhos, e isso pode afetar os relatos alimentares e possíveis condutas do nutricionista.

Algumas ferramentas podem auxiliar o Nutricionista a mensurar a ingestão alimentar no caso de crianças e adolescentes com DA, entre eles, tem-se o uso de vídeos e o inquérito alimentar.

Segundo estudos o uso de vídeos (MICS- Mealtime Interaction Coding System) em ambiente doméstico do paciente é uma boa ferramenta pois possibilita observação do comportamento verdadeiro dos pais e dos filhos.  É uma medida usada para avaliar famílias durante as refeições. O MICS é uma metodologia observacional que utiliza observação direta e avaliação de dados reais do comportamento no ambiente familiar natural. Essa ferramenta se concentra em interações e funcionamento específicos em torno das refeições. O horário das refeições geralmente está relacionado a uma situação crítica (será individual para cada paciente). Além disso, são levados em consideração aspectos do manejo da doença e ingestão alimentar por várias condições crônicas e agudas de saúde (por exemplo, diabetes, obesidade, doença inflamatória intestinal, entre outros). Pode fornecer uma rica fonte de informações para a prática clínica.

O estudo publicado na revista Childhood Obesity em 2011, comparou o funcionamento familiar das refeições de crianças obesas que procuram tratamento e não-obesas através da gravação de um vídeo (Metodologia MICS) durante a refeição.

Os cuidadores de crianças obesas relataram maiores desafios às refeições e um ambiente menos positivo que as comparações não-obesas. Não houve diferenças significativas entre os grupos nas interações familiares observadas nas refeições. Porém, embora as médias dos grupos na medida observacional do funcionamento familiar das refeições não tenham sidodiferentes, os cuidadores de crianças obesas relataram maior estresse nas refeições. O que reforça o quanto é importante, no contexto do tratamento, abordar as percepções dos cuidadores sobre os desafios das refeições e examinar até que ponto esses desafios auto-relatados afetam a implementação de recomendações e os resultados do tratamento.

Outro estudo publicado na revista Nutricion Clinica y Dietetica Hospitalaria comparou a variedade de alimentos consumidos por crianças com Dificuldade alimentar (DA) sob percepção materna à avaliação realizada por nutricionista, usando um inventário de alimentos em associação com métodos tradicionais. Esse estudo transversal aconteceu em um ambulatório em São Paulo com 119 pares de mãe-filho. Coletou-se dados demográficos, estilo parental materno, responsabilidade sobre a alimentação da criança, percepção da diversidade de alimentação das Crianças (expressa em números, extraída de inventário de alimentos auto-preenchido), presença de doença orgânica, tipo de DA, IMC, escore Z e repertório real de alimentos consumidos (expresso em números, avaliado pelo nutricionista depois de avaliar o inventário de alimentos). O inventário forneceu informações sobre alimentos que a criança aceita sem rejeição; costumava aceitar mas agora rejeita; rejeita completamente. Outro ponto importante do inventário foi a possibilidade de avaliação de padrões de cores, texturas, temperaturas, consistências, marcas. Abaixo segue a representação do modelo do inquérito alimentar utilizado no estudo:

blog

A parte superior da folha consiste na identificação dos pacientes; a coluna da esquerda indica “alimentos aceitos”; A coluna do meio indica “alimentos que a criança aceitou uma vez, mas não aceita mais”; coluna da direita afirma “alimentos que são completamente rejeitados”.

A diversidade geral de alimentos variou de 16 a 30 tipos de alimentos. A percepção materna variou de 4,3 a 14,5. Cerca de 23,7% das crianças foram consideradas altamente seletivas (menos de 15 tipos de alimentos). A percepção materna subestimou a avaliação do nutricionista em 2,2 vezes. Os achados reforçam a importância das intervenções comportamentais com os pais e do uso de metodologias de investigação dietética complementares às estratégias já validadas.

Portanto, houve subestimação materna sobre a quantidade de alimentos aceitos por crianças com DA. Os dados reforçam a necessidade de orientação familiar sobre as expectativas quanto às práticas de alimentação e preferências de seus filhos.

Referências Bibliográficas:

MITCHELL, M. et al. Examining Short-term Stability of the Mealtime Interaction Coding System (MICS). Journal Of Pediatric Psychology, [s.l.], v. 34, n. 1, p.63-68, 21 set. 2007. Oxford University Press (OUP). http://dx.doi.org/10.1093/jpepsy/jsn043.

PIAZZA-WAGGONER, Carrie et al. Distress at the Dinner Table? Observed Mealtime Interactions among Treatment-Seeking Families of Obese Children. Childhood Obesity, [s.l.], v. 7, n. 5, p.385-391, out. 2011. Mary Ann Liebert Inc. http://dx.doi.org/10.1089/chi.2011.0066. Disponível em: <https://www.liebertpub.com/doi/pdf/10.1089/chi.2011.0066>. Acesso em: 20 fev. 2020.

Ribeiro, Letícia W; Ricci, Raquel; Maximino, Priscila; Machado, Rachel HV; Bozzini, Ana Beatriz; Ramos, Cláudia C; Malzyner, Gabriela; Fisberg, Mauro. Uso clínico do inventário alimentar para identificação do sub relato materno sobre ingestão alimentar em crianças: experiência de centro de referência brasileiro. Nutricion Clinica y Dietetica Hospitalaria, [s.l.], n. 1, p.81-89, 2018. SEDCA.http://dx.doi.org/10.12873/381LRibeiro.

Sem comentários.

Escreva um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *