Os fatores de proteção presente nos alimentos e o câncer de cabeça e pescoço

Por Luiza Thimoteo Cabral e Silvia Ramos

 

   O câncer é uma das doenças que mais mata atualmente. Segundo o World Cancer Research Fund em 2018 houve cerca de 18 milhões de casos de câncer em todo o mundo, sendo o câncer de cabeça e pescoço um dos tipos mais comum. Esta neoplasia pode acometer a cavidade oral, faringe e laringe. O Instituto Nacional do Câncer do Brasil (INCA) estima mais de 30 mil casos de câncer de cabeça e pescoço entre os anos de 2018-2019, sendo mais frequente em homens na faixa dos 60 anos de idade.

   No câncer de cabeça e pescoço a causa mais comum está associada ao tabagismo e consumo de álcool, sendo responsável por 80% do risco de desenvolvimento. A maioria das neoplasias poderiam ser evitadas por mudanças no estilo de vida e adoção de hábitos alimentares mais saudáveis. O consumo de certos alimentos, de forma frequente, apresenta fatores de proteção devido a seus compostos bioativos e moduladores.

   Segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira do Ministério da Saúde, os alimentos são divididos nas seguintes categorias, sendo in natura, minimamente processados, processados e ultra processados, a classificação é feita através da quantidade de processos que o alimento foi submetido até chegar ao consumidor. Os alimentos minimamente processados contêm fatores de proteção que reduzem o risco de câncer de cabeça e pescoço, nesta categoria estão inclusos frutas, verduras cruas, vegetais, raízes, sementes e tubérculos por fornecerem micronutrientes, fibra alimentar e fitoquímicos.

   Considerando este contexto sobre os fitoquímicos presentes nos alimentos, foi realizado um estudo multicêntrico de controle de casos no Brasil, coordenado pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer. O recrutamento ocorreu entre 2011 e 2017 na Associação de Combate ao Câncer do Hospital Goiás de Araújo Jorge (Goiânia, GO), do Hospital do Câncer AC Camargo (São Paulo, SP) e da Associação Feminina de Combate ao Câncer de Santa Rita de Hospital Cássia (Vitória, ES). A amostra final de 1740 participantes, sendo 847 casos com carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço (incluindo 398 casos de câncer de cavidade oral, 249 casos de câncer de orofaringe, 157 casos de câncer de laringe e 43 casos de câncer de hipofaringe) e 893 controles saudáveis. Os seguintes critérios foram avaliados: etnia, escolaridade, gênero, faixa etária, consumo de álcool, tabagismo, higiene bucal, IMC e consumo de alimentos minimamente processados.

   Foi observado que o critério tabagismo no passado e/ou atual e o consumo de álcool aumentaram o risco de ocorrência de câncer da cavidade oral, orofaringe, laringe e hipofaríngeo quando comparado a indivíduos que nunca fumaram ou beberam. Em relação a escolaridade, os indivíduos que concluíram o ensino fundamental e ensino médio tinham menos probabilidade de desenvolver o câncer de cavidade oral e hipofaríngeo. O critério de etnia, não foi fator determinante de associação com o risco e a higiene bucal deficiente mostrou ter influência gerando maior risco.

   Os indivíduos que apresentaram baixo peso tiveram chances maiores de desenvolver câncer em relação a indivíduos eutróficos. A desnutrição foi encontrada em 31,1% (n = 261) de todos os casos no diagnóstico, sendo uma característica típica em pacientes com esse tipo de neoplasia mesmo antes do tratamento.

  Os resultados encontrados sobre os fatores de proteção presente nos alimentos minimamente processados neste estudo são compatíveis com estudos encontrados na literatura. Os alimentos minimamente processados constituem uma dieta com baixa densidade energética e baixos níveis de açúcares, gorduras e sal, além do consumo adequado de fibras, levando a redução de chance de câncer, pois os nutrientes e fitoquímicos presentes podem interferir em diferentes estágios de carcinogênese. As associações encontradas entre o consumo dos alimentos e a redução de chance de câncer de cabeça e pescoço estão descritas no quadro abaixo:

Quadro 1. Resultados da relação entre os alimentos e a redução de câncer de cabeça e pescoço

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   A associação entre os fatores de proteção dos alimentos na redução de risco de câncer obteve resultados positivos, mesmo diante das dificuldades em realizar estudos de caso-controle, fatores como viés de memória, consumo de alimentos e nutrientes associados ao câncer muitos anos antes do início do câncer e modificação da dieta do indivíduo durante as fases iniciais da doença.

   Para incentivar o aumento no consumo desses alimentos pela população é necessário políticas públicas que visem melhorar o perfil nutricional, a higienização bucal, a diminuição do consumo de álcool e do uso do tabaco. Sendo assim, facilitar o acesso a alimentos mais naturais possíveis através de hortas domésticas e comunitárias e mercados livres para fortalecer o desenvolvimento do comportamento saudável da população brasileira.

 

 

Referência:

PODESTÁ, Olívia Perim Galvão De, et al. Consumption of minimally processed foods as protective factors in the genesis of squamous cell carcinoma of the head and neck in Brazil. PLoS One. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6657870/>.

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