ESTUDO LOW CARB

Por Ana Cecília Simões 

O estudo “Dietary carbohydrate intake and mortality: a prospective cohort study and meta-analysis”[1], publicado no periódico The Lancet em 16/08/2018, gerou grande repercussão entre os profissionais da saúde e pessoas fieis à dieta Low Carb. Dada a necessidade de mais evidências para ajudar a orientar as recomendações sobre a ingestão ideal de carboidratos, este estudo de base populacional, fundamentou-se no consumo geral de carboidratos, para investigar a associação da ingestão deste macronutriente com mortalidade e tempo de vida residual. Trata-se de um estudo epidemiológico de coorte prospectiva, com residentes de quatro comunidades dos EUA, que completaram um questionário alimentar na inscrição do estudo “Atherosclerosis Risk in Communities”(ARIC) (entre 1987 e 1989). O estudo teve um acompanhamento médio de 25 anos, com a participação de 15.428 adultos que tinham idade entre 45 e 64 anos. O objetivo da pesquisa foi investigar a associação entre a porcentagem de energia proveniente da ingestão de carboidratos e a mortalidade por todas as causas.

Os participantes do estudo foram avaliados em visitas de acompanhamento, tendo sido iniciadas entre 1987 e 1989, a segunda entre 1990 e 1992, a terceira entre 1993 e 1995, a quarta entre 1996 e 1998, a quinta entre 2011 e 2013 e a sexta entre 2016 e 2017. Os participantes forneceram consentimento informado por escrito em cada exame e completaram uma entrevista que incluia um questionário de frequência alimentar semiquantitativo de 66 itens (QFA). Utilizou-se o Harvard Nutrient Database para derivar a ingestão de nutrientes das respostas do QFA.

Os resultados mostraram que a ingestão média de carboidratos foi de 48,9%, com desvio padrão de 9,4. Os indivíduos que consumiram uma porcentagem relativamente baixa da energia total de carboidratos (ou seja, participantes nos quantis mais baixos) eram mais propensos a ser jovens, homens, universitários graduados, alto índice de massa corporal, praticavam menos atividade física, tinham alta renda familiar, fumavam cigarros e eram diabéticos.  Os participantes do quintil de carboidratos mais baixo apresentaram maior consumo médio de gordura e proteína animal e menor consumo médio de proteína vegetal e fibra alimentar do que os participantes dos outros quintis. No geral, o consumo médio de energia proveniente da gordura e proteína animal foi maior do que da gordura e proteína vegetais em todos os quintis de carboidratos. O maior risco de mortalidade foi observado nos participantes com menor consumo de carboidratos, nos modelos não ajustados e ajustados (p <0,001).

A grande contribuição deste estudo é mostrar que a relação entre expectativa de vida e ingestão de carboidrato total tem uma forma de U, onde a expectativa de vida é maior entre as pessoas com consumo de carboidrato entre 50 e 55%. Quando a ingestão de carboidrato é muito maior ou muito menor do limiar de 50 a 55%, o risco de mortalidade aumenta.

Existem limitações para este estudo que merecem considerações, sendo uma delas o fato de ser um estudo observacional. Esse tipo de delineamento não pode estabelecer causa e efeito, e sim utilizado para levantar hipóteses. A coorte foi inquirida sobre o que comia com o emprego de um questionário de frequência alimentar, não sendo possível uma medição acurada sobre a alimentação destes indivíduos.

O grupo de indivíduos que consumiam menos carboirdrato, era também o grupo com maior número de pessoas com perfil menos saudável. Essas características não permitem separar os riscos associados à mortalidade devido ao cigarro, o IMC elevado (doenças cardiovasculares) e também à diabetes. Sendo assim, sem desmembrar esses fatores não é possível que se consiga realizar a distinção correta de qual fator de risco é o mais importante.

Referências:

[1] SEIDELMANN et al. Dietary carbohydrate intake and mortality: a prospective cohort study and meta-analysis. The Lancet. v.3, p.419-428, 2018.

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