Cuidado do atleta com diabetes mellitus tipo 1

Por Marina Barbon Gonzalez e Silvia Ramos (Nutricionista CRN3-10908)

A hiperglicemia crônica é a principal consequência do Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1). Isso ocorre em função da destruição das células β pancreáticas mediada por anticorpos do próprio organismo, o que a torna uma doença autoimune. Por se tratar de uma patologia crônica, os indivíduos com DM1 necessitam de injeção de insulina exógena para o resto da vida. Atualmente, com o avanço da chamada insulinoterapia, esses pacientes estão participando de níveis cada vez mais altos de esportes competitivos.

Em comparação com pessoas totalmente saudáveis, atletas com DM1 apresentam quase todos os mesmos benefícios provenientes dos exercícios, relacionados à saúde, sendo alguns deles: aumento da sensibilidade à insulina e diminuição das necessidades da mesma, níveis mais baixos de hemoglobina A1c (HbA1c) e melhora na aptidão cardiorrespiratória. Apesar de todos esses benefícios, o risco de hipoglicemia pós-exercício é uma das principais preocupações para o manejo eficaz desses atletas.

Uma revisão publicada em 2016 resumiu a literatura disponível na época a fim de auxiliar médicos e nutricionistas na tomada de decisão clínica para essa população. Como resultado esse artigo traz diversas recomendações com a intenção de melhorar o desempenho de atletas diabéticos.

No geral, o equilíbrio recomendado de macronutrientes para esses pacientes não difere de forma significativa das recomendações para a população em geral, entretanto calorias e líquidos adicionais podem ser necessários para atletas com DM1. Deve-se considerar que tais recomendações variam com base na intensidade do exercício, gasto energético total, tipo de programa e duração do exercício, gênero e fatores ambientais.

Tabela 1 – Recomendações diárias de CHO para atletas por carga de treinamento, adaptado de HORTON e SUBAUSTE, 2016.

Carga de treinamento Recomendação CHO (g/kg/dia)
Treinamento muito leve (exercícios de baixa intensidade ou exercícios baseados em habilidades) 3 – 5
Exercício de intensidade moderada por 1 hora / dia 5 – 7
Exercício de intensidade moderada a alta por 1 a 3 horas / dia 7 – 10
Exercício de intensidade moderada a alta por 4 – 5 horas / dia ≥ 10 – 12

Para atletas competitivos que possuem DM1, a American Dietetic Association, junto com Dietitians for Canada e American College of Sports Medicine trouxeram algumas recomendações como:

  • Faixa de consumo de CHO: 6 a 10 g/kg de peso corporal por dia;
  • Faixa de consumo de gordura: 20-35% da ingestão total de energia;
  • Faixa de consumo de proteína: 1,2-1,7g/kg de peso corporal por dia, para aqueles que treinam exercício de resistência e força (recomendação que pode ser atendida apenas com dieta, sem necessidade de suplementos).

As recomendações de CHO e ingestão de líquidos durante a prática da atividade física variam de acordo com a duração da mesma. Por exemplo, para exercícios de 30 a 60 minutos o principal objetivo é a reposição de fluidos, sendo a ingestão de CHO benéfica em casos de exercício de alta intensidade. Já para atividades de 1 a 3 horas, além da reposição de fluidos, a ingestão de CHO torna-se também o principal objetivo, sendo recomendado 30g/hora de exercício. A recomendação geral é de 30 a 60 g de CHO por hora de exercício.

É fundamental que os atletas com DM1 consumam quantidades adequadas de carboidratos e coordenem a ingestão de alimentos com o tempo de exercício e dosagem de insulina, para então otimizar o controle glicêmico e o desempenho do exercício e para prevenir a tão temida hipoglicemia, que pode ocorrer de 6 a 15 horas pós-exercício.

O artigo também apresenta algumas recomendações que podem servir como um guia para determinar as necessidades de CHO de cada atleta, porém ele ressalta que se deve considerar alguns fatores para realizar a prescrição, sendo eles:

  1. Forma de tratamento da insulinoterapia;
  2. Momento do exercício em relação ao bolus de insulina;
  3. Nível de glicose sanguínea ao iniciar o exercício;
  4. Hipoglicemia antecedente e exercício moderado prolongado;
  5. Tipo de exercício.

O estudo concluiu que embora o exercício regular seja um aspecto importante do controle do DM1, as demandas da atividade física podem predispor os atletas com DM1 a complicações perigosas. Por isso é de extrema importância ter uma compreensão adequada do meio hormonal durante o exercício, junto das necessidades nutricionais especiais, do controle glicêmico e dos ajustes necessários na dosagem de insulina, sempre com o objetivo de criar a estratégia mais adequada e de forma individualizada.

REFERÊNCIA

HORTON, Willian B.; SUBAUSTE, Jose S.. Care of the Athlete With Type 1 Diabetes Mellitus: A Clinical Review. Int. Journal of Endocrinology Metabolism, [s. l.], v. 14, n. 2: e36091, p. 1-10, mar. 2016. Disponível em: https://sites.kowsarpub.com/ijem/articles/17738.html. Acesso em: 27 out. 2020.

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