Crononutrição no tratamento do diabetes

Por Paula Amorim e Silvia Ramos

O diabetes mellitus ainda é uma doença crônica crescente no mundo todo, nas últimas três décadas o número de Diabetes quadruplicou. A Federação Internacional de Diabetes (IDF) estima que 415 milhões de adultos tinham diabetes em 2015 e até 2040, a projeção é de alcançar 642 milhões.

Associado a intervenções farmacológicas quando necessárias, a alimentação saudável e equilibrada tem sido considerada uma medida essencial para prevenção e controle do diabetes tipo 2.

Recentemente, um crescente número de evidências tem apoiado a ideia de que o sistema circadiano pode interagir com os nutrientes, influenciando diversas funções do corpo humano. Este estudo é chamado de “crononutrição”.

O sistema circadiano é composto por relógios circadianos que tem a função de regular os ciclos corporais, sincronizando-os com o ciclo ambiental de 24h. Este relógio prepara o corpo para eventos que ocorrem em todo o dia, tais como: parâmetros fisiológicos como secreção hormonal, batimentos cardíacos, fluxo sanguíneo renal, ciclo do sono e mudanças da temperatura corporal.

Garantir a ritmicidade circadiana é crucial para influenciar processos regulatórios metabólicos, regulando a expressão e/ou atividade de enzimas envolvidas no metabolismo da glicose.

Na sociedade moderna, longas jornadas de trabalho, alta prevalência de insônia e alimentação inadequada se tornaram comuns, o que leva a estilos de vida desalinhados em relação ao ciclo circadiano.  Estudos recentes mostram que esse desalinhamento do relógio influencia a ingestão de alimentos, metabolismo, regulação do peso e obesidade. Como pode se observar na figura abaixo:

Figura 1: Fatores que afetam o ritmo circadiano. Adaptado de Henry et al. Nutrition and Diabetes (2020)

30 dias (1)

Um recente artigo de revisão sobre Crononutrição no tratamento de diabetes foi publicado nesse ano no periódico Nutrition and Diabetes. Essa revisão (embora tenha se concentrado predominantemente em indivíduos saudáveis) visou coletar informações também relevantes para os diabéticos em relação aos seus horários das refeições e ingestão de nutrientes influenciando no controle da glicemia.

Os principais achados dessa revisão foram:

  • O horário das refeições tem um efeito importante no diabetes tipo 2. Portanto, leva-lo em consideração é tão importante quanto o valor nutricional da refeição por si só.
  • Comer uma refeição rica em carboidratos no período noturno, resulta em glicemia pós-prandial aumentada em comparação com refeição semelhante no período da manhã. Portanto, modificar a composição de macronutrientes das refeições, aumentando o teor de proteínas e gorduras, pode ser uma simples estratégia para melhorar a glicemia nas refeições consumidas à noite.
  • Pacientes diabéticos devem ser incentivados e informados a respeito dos benefícios de consumir refeições no início do dia.
  • Comer alimentos com baixo índice glicêmico de manhã melhora a resposta glicêmica quando comparado à noite.
  • Horário da ingestão de gordura e proteínas associados aos carboidratos, pode reduzir a resposta glicêmica.
  • A ordem da ingestão da comida influencia consideravelmente a resposta glicêmica. Para uma refeição com arroz, por exemplo, seguir a seguinte sequência: consumo de vegetais primeiro, seguido de carne e, finalmente, arroz, tem um melhor potencial de reduzir a glicemia pós-prandial.

Por fim, o estudo conclui que embora a crononutrição seja uma ciência promissora, ainda resta muito a aprender sobre a natureza e momento da administração da dieta na regulação da homeostase da glicose. Além disso, demonstrou que a escolha do alimento por si só não determina a resposta glicêmica. A crononutrição indica que o momento e ordem da ingestão dos alimentos dentro e entre as refeições também pode influenciar significativamente a glicemia pós-prandial.

 

Referências Bibliográficas:

Henry CJ, Kaur B, Quek RYC. Chrononutrition in the management of diabetes. Nutr Diabetes. 2020.

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