COVID 19, DESIGUALDADE SOCIAL E A INSEGURANÇA ALIMENTAR

Por Renata Soares e Silvia Ramos

Devido a pandemia causada pela COVID 19, diversas famílias tiveram que se adaptar, pois muitas sofreram e sofrem diretamente com a falta, perda de emprego ou salários reduzidos, ocasionando diminuição na renda ou até mesmo a ausência dela. Dessa forma a Insegurança Alimentar que já era grande em nosso pais, ficou ainda maior. A falta do básico nas mesas das famílias Brasileiras cresce de forma acentuada, trazendo cada vez mais essa realidade à tona. Neste período de pandemia o índice de IA pode ser visto dobrando em nosso pais, local onde a incidência de IA sempre foi grande.

Grande parte da população brasileira ainda hoje, vive em más condições de vida diante de uma desigualdade social, sendo assim, podemos ver o reflexo disso na alimentação dessas famílias no dia a dia. A Segurança Alimentar Nutricional (SAN) que no Brasil foi determinada como a garantia ao direito humano à alimentação saudável e adequada, assume duas medidas: a alimentar, que é associada ao acesso a qualidade sanitária, biológica e disponibilidade de alimentos; e a nutricional que mostra o estado nutricional, práticas alimentares saudáveis e proteção da cultura alimentar. Sendo assim, quando uma ou mais dessas dimensões são violadas, temos então, a Insegurança Alimentar (IA).

A IA é decorrente de alguns fatores que são inter-relacionados, sendo proeminente em situações de desigualdade social e condições de vida.  Identificar a IA é um trabalho muito difícil e desafiador, principalmente em grandes populações, por necessitar do uso de vários indicadores que contenham suas variações sociais, psicológicas e de condições e qualidade de vida. Mesmo sendo um trabalho difícil, entender e investigar todos esses requisitos é de extrema necessidade para traçar políticas sociais e de saúde que diminuam e parem seus efeitos insalubres.

Em 2020, foi realizado um estudo observacional baseado em dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) 2008 e 2009 sobre qualificação e identificação de dados para a Insegurança Alimentar no país. A amostra foi composta por casas com famílias de todo o território nacional, incluindo todas as unidades da federação sendo áreas urbanas e rurais das cinco regiões do pais. Foram pesquisadas 55.406 casas em 2008 e 2009, o equivalente a 98,9% do total analisado pela POF.

Cerca de 39,4% (n=21.826) estavam em  situação e  (IA) e, (93,9%) informaram dificuldade de sobrevivência até o final do mês com a renda familiar disponível. Em quase todas as casas investigadas foi considerado que dois salários mínimos mensais seria o ideal para as despesas, e o valor mínimo para gastos com alimentação de extrema necessidade. Grande parte das famílias brasileiras em situação Insegurança Alimentar, avaliaram as condições de moradia como não satisfatórias (65,9%).  Os problemas mais relatados que influenciam a IA são, pouco espaço (51,9%), telhado com goteira (49,8%), madeira das janelas, porta e assoalhos quebrados (43,7%), fundação, parede ou chão úmidos (42,8%), e por fim, violência e vandalismo na área de residência (32,9%).

Vemos que a maior parte da população em casas que apresentam IA são pessoas que moram em regiões que não são assistidas corretamente pelos governos locais e por casas com famílias de renda baixa que vivem com um salário mínimo ou menos. O cenário de desigualdade social em todas as regiões do país influencia para o aumento das más condições alimentares e dessa forma entram para os dados de Insegurança Alimentar no Brasil.

Em tempos de pandemia onde tudo parece mais difícil, achar uma saída para driblar a IA também se torna complicado, como se não bastasse todo nosso histórico de desigualdade ainda estamos tendo que lidar com um vírus mortal que torna a alimentação básica ainda mais difícil. Para tentar amenizar a IA esse momento tão triste requer ações imediatas. As ações devem ser centradas na articulação das estratégias que promovam a soberania, a segurança alimentar e nutricional e sistemas alimentares mais saudáveis e sustentáveis, como o fortalecimento da agricultura familiar; garantia de renda para a população; acesso a alimentos de qualidade; mudanças no ambiente alimentar; divulgação de informações sobre alimentação saudável e sustentável em recomendações oficiais para a pandemia e guias alimentares que abranjam todo o sistema alimentar, assim como práticas de educação alimentar e nutricional.

Referência
ARAUJO, Melissa Luciana de et al.Condições de vida de famílias brasileiras: estimativa da insegurança alimentar. Rev. bras. estud. popul. [online]. 2020, vol.37, e0110.  Epub May 15, 2020. ISSN 1980-5519.  https://doi.org/10.20947/s0102-3098a0110.

MARTINELLI, Suellen Secchi et al.Strategies for the promotion of healthy, adequate and sustainable food in Brazil in times of Covid-19. Rev. Nutr. [online]. 2020, vol.33, e200181.  Epub Oct 16, 2020. ISSN 1678-9865.  https://doi.org/10.1590/1678-9865202032e200181.

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