Comparação entre dietas com baixo teor de carboidratos x baixo teor de gorduras na massa corporal – Uma revisão sistemática

Por Marina Barbon Gonzalez e Silvia Ramos (Nutricionista CRN3-10908)

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade é um dos problemas mais graves de saúde pública no mundo. Estima-se que em 2025 cerca de 2,3 bilhões de adultos estejam acima do peso, sendo 700 milhões com obesidade. Essa doença crônica reduz a qualidade de vida do indivíduo e possibilita o surgimento de outras doenças como diabetes e doenças cardiovasculares, além de alguns tipos de câncer, segundo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO).

Como consequência do aumento da prevalência e incidência de obesidade, observou-se nos últimos 10 a 20 anos, um aumento no interesse em dietas com baixo teor de carboidratos (CHO) e em dietas com restrições mais severas (cetogênicas) (<50g/dia de CHO), entre as pessoas que buscam perder peso. De fato, há evidências de que essas dietas provocam reduções maiores na massa corporal em comparação com dietas tradicionais com baixo teor de gordura, entretanto também há evidências que sugerem o contrário.

Antes que se possa defender uma abordagem personalizada para os indivíduos atingirem a perda de massa corporal deve-se considerar se eles respondem de forma diferente a intervenções dietéticas idênticas, chamadas de “heterogeneidade de resposta”, e, para quantificá-las, é preciso comparar o desvio-padrão das alterações pré e pós intervenção entre os grupos de estudo nos estudos clínicos randomizados (ECRs).

Um estudo publicado em setembro deste ano realizou uma revisão sistemática com meta-análise no qual foi avaliado se os ECRs publicados de dietas com baixo teor de CHO mostram maiores diferenças individuais na quantidade de peso perdido em comparação com dietas com baixo teor de gordura. Para isso, foi calculada a diferença na variação da resposta interindividual no resultado da massa corporal para cada estudo, utilizando um IC de 95%, entretanto não foram analisadas alterações na composição corporal dos indivíduos.

Foram considerados 25 ECRs de dietas de baixo CHO (≤150g/dia), substituindo-o por proteína e gordura, versus grupos realizando dieta com baixo teor de gordura e alta em CHO. No total foram envolvidos 3.340 participantes com tamanho de amostras de 22 a 609 e períodos de acompanhamento variando de 3 a 24 meses. Entretanto, os intervalos de predição utilizados (-6,3 a 10,4 kg) e os ICs de 95% são amplos e se sobrepõem a zero significativamente, o que demonstra uma imprecisão na estimativa da variabilidade da resposta interindividual.

Em função disso, os resultados desse estudo não apresentaram evidências suficientes nos ECRs conduzidos até o momento para indicar qualquer variação de resposta interindividual maior ou menor na resposta de massa corporal entre as dietas comparadas. Contudo, isso não significa que há ou não uma variação da resposta individual em cada uma das dietas de forma individual, apenas pode-se determinar que não há uma diferença na variação das respostas nas dietas com baixo teor de CHO em comparação com dietas com baixo teor de gordura.

Pode-se afirmar que, de acordo com os diversos cálculos e análises do artigo, essa falta de variação individual não é resultado de um consumo de gordura altamente variado nas dietas dos grupos comparadores, bem como não é em razão de uma ingestão variada ou alta de CHO (>240g/dia) também nesses mesmos grupos. Um dos fatores que pode ter interferido nesse resultado é a variabilidade aleatória no peso corporal que naturalmente ocorre nos indivíduos em períodos mais longos, de vários meses, como nos estudos analisados em que os períodos variam de 3 meses a 2 anos.

Apesar disso, vale ressaltar que médicos e nutricionistas (profissionais imprescindíveis para tratar indivíduos com obesidade) podem e devem ser aconselhados a considerar que a variação individual para a composição alimentar pode depender do contexto no qual o paciente está inserido. Esse contexto reflete a implementação das dietas com estratégias de alterações dos macronutrientes aplicáveis ao cotidiano, o que torna fundamental sua consideração.

A revisão concluiu que mais estudos com tamanhos de amostra maiores e com potência adequada devem ser realizados de forma específica na comparação das duas dietas avaliadas, a fim de melhorar a precisão das estimativas de heterogeneidade da resposta ao tratamento dessas dietas no futuro.

Referência Bibliográfica

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE E DA SÍNDROME METABÓLICA (Brasil), (org.). Mapa da obesidade. Disponível em: <https://abeso.org.br/obesidade-e-sindrome-metabolica/mapa-da-obesidade/>. Acesso em: 08 out. 2020.

SMITH, Eleanor S.; et al. A Systematic Review and Meta‐Analysis Comparing Heterogeneity in Body Mass Responses Between Low‐Carbohydrate and Low‐Fat Diets. Obesity, [s. l.], v. 28, n. 10, p.  1833-1842, set. 2020. Disponível em: <https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/oby.22968>. Acesso em: 08 out. 2020.

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