Como a abreviação de jejum pode melhorar o estado pós-operatório do paciente

Por Anna Gomes e Silvia Ramos

O jejum realizado no pré-operatório é essencial para evitar aspiração do conteúdo gástrico durante o processo anestésico. Desta forma, muitos médicos adotam o termo “nada pela boca” deliberadamente, a fim de evitar esta complicação cirúrgica. Entretanto, sabe-se que o estado de jejum é estressante para o organismo e se soma com o trauma ocasionado pela cirurgia, resultando em um estresse maior e aumento dos riscos pós-operatório.

Muitas vezes o jejum pode ser prolongado além do planejado devido às intercorrências do dia-a-dia, como por exemplo o adiamento da cirurgia, transferência de local e entre outros fatores. O estudo em questão realizou uma revisão bibliográfica a fim de identificar evidências científicas a respeito da abreviação de jejum, tipos mais frequentes de operações que utilizam este procedimento e quais suplementação nutricional é escolhida.

O jejum prolongado diminui a secreção de insulina aumentando a de glucagon, gerando uma resistência à insulina que pode perdurar até 3 semanas após a cirurgia. Desta forma, ocorre a ativação da neoglicogênese, aumentando a glicemia e depleção de glicogênio, intensificando o estresse metabólico pós-cirúrgico.

A administração de bebidas contendo carboidratos até 2 ou 3h antes do procedimento cirúrgico têm apresentado resultados positivos. Isto porque, os carboidratos são capazes de regular a glicemia, evitando o estresse e inflamação.

Na maioria das cirurgias abdominais o consumo de bebida contendo maltodextrina (25g a 50g, para 200ml a 400 ml respectivamente), 2 a 3h antes da cirurgia ajudam a diminuir o desconforto pós-operatório e o tempo de internação. Além disso, compostos contendo fórmulas protéicas como glutamina e whey também apresentam eficácia quando associadas ao carboidrato.

Uma revisão sistemática, realizada em 2015, identificou que os pacientes que realizaram a abreviação de jejum e passaram por cirurgias oncológicas apresentaram um menor tempo de internação, melhores parâmetros glicêmicos, melhor resposta inflamatória e capacidade funcional. Além desses resultados, outros autores também demonstraram que é possível identificar uma melhor oxigenação da mucosa intestinal, redução do tempo de dismotilidade intestinal, diminuição no número de complicações pós-operatórias e redução de náuseas, vômitos e complicações anestésicas no pré-operatório.

Quando se trata de crianças o jejum prolongado pode ser mais prejudicial ainda, isto porque esta faixa etária não possui estoques de glicogênio hepático e muscular suficiente para manter-se sem se alimentar por um longo período, quanto menor for a criança, maior será a chance de hipoglicemia e cetogênese. Outro ponto relevante, é que foi identificado que a criança tem um rápido esvaziamento gástrico quando consumido líquidos claros, ocorrendo dentro de uma hora. Sendo assim, a abreviação do jejum pode ser feita até uma hora antes do procedimento cirúrgico.

Os autores concluíram que a abreviação do jejum em até 2h antes do procedimento é uma medida que possibilita uma melhora do quadro pós-operatório do paciente, diminui resistência insulínica, reduz o estresse cirúrgico e proporciona melhores condições e bem estar para o indivíduo. A bebida utilizada é uma solução contendo majoritariamente carboidratos, mas também pode ser adicionado glutamina e proteína do soro do leite. No estudo em questão, a aplicação deste protocolo ocorreu um cirurgias de colecistectomia, oncológicas, abdominais diversas, bucomaxilofacial, cardíaca, pediátrica e ortopédica.

CHAVES, Ligia Melo; CAMPOS, Jamile Suelen dos Prazeres. Abreviação do jejum e suporte nutricional pré-operatório em cirurgias eletivas: Uma revisão sistemática. Revista Eletrônica Acervo Saúde, 2019. Vol.Sup. 35. Disponível em: https://acervomais.com.br/index.php/saude/article/view/2210

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