Qualidade dos Carboidratos e a Saúde Humana

Os Carboidratos são considerados a principal fonte de energia desde antes do século 20. Mas na década 60, aumentou a conscientização do potencial do açúcar (principalmente sacarose) e, foi promovido a visão de que o açúcar era uma das principais causas de obesidade e diabetes tipo 2.  Com base em extensas revisões sistemáticas e meta-análises, em 2015, a OMS emitiu uma recomendação de que indivíduos precisam reduzir a ingestão para menos de 10% da energia total. Eles também emitiram uma recomendação condicional sugerindo que o benefício maior poderia resultar se a ingestão de açúcar fosse menor ainda, 5% da energia total. Atualmente a Sociedade Brasileira de Diabetes já  recomenda  até 5%  da ingestão de  sacarose em  suas  diretrizes.

Nesta revisão sistemática seguida de meta análises, Reynolds e cols. relatam sobre indicadores e marcadores de qualidade de carboidratos. Foram analisados  estudos sobre fibras na dieta, índice glicêmico  e ingestão de grãos integrais e a relação entre a incidência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), mortalidade e fatores de risco, mostrando o impacto da ingestão de carboidratos na saúde. A pesquisa foi solicitada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para informar o desenvolvimento de recomendações atualizadas em relação à ingestão de carboidratos. Os participantes dos estudos elegíveis foram adultos e crianças sem doença aguda ou crônica. Entretanto, indivíduos com pré-diabetes, hipercolesterolemia leve a moderada e hipertensão leve a moderada ou síndrome metabólica puderam  ser incluídos.

Foi usado 30g para representar uma porção de grãos integrais quando o valor do peso não foi declarado e, para ajudar a estabelecer o consumo ideal de fibra alimentar.  Assim, consideraram as curvas de dose-resposta para a dieta total, consumo de fibras e desfechos clínicos comparando àqueles com consumo mais baixo de fibra dietética com os indivíduos que consomem entre 15 a 39 g de fibra por dia.

Os desfechos avaliados incluíram  adiposidade, glicose em jejum, insulina em jejum, sensibilidade à insulina, hemoglobina glicada, triglicerídeos, colesterol e hipertensão arterial. Os estudos  incluídos  foram  na maioria paralelos e/ou cruzados e  randomizados com duração de no mínimo  quatro semanas. Análises em subgrupos  foram  feitas quando a  fonte principal  de carboidrato era o amido.

 Fibra Dietética 

A ingestão de fibra dietética total está associada à 15–31% de redução nos  desfechos críticos e especificados. Entretanto,  para  Acidente Vascular Cerebral  (AVC) os dados  não apresentaram  a mesma  qualidade e há  grande heterogeneicidade da amostra. Além  disto,  os  desfechos  mais  duros  foram  avaliados por meio de estudos observacionais. Para o peso corporal os resultados foram positivos embora a significância clínica não tenha sido  discutida. Os efeitos  foram  similares ao examinar as fibras de diferentes grupos alimentares ou fibras descritas como solúveis ou insolúveis.

As relações dose-resposta para o total de ingestão de fibras e mortalidade total, incidência de doença cardíaca, diabetes tipo 2 e câncer colorretal demonstram resultados  na maior parte lineares sem nenhum sinal de platô. Ao comparar a ingestão mais baixa em fibras versus ingestões em intervalos pré-especificados, os maiores benefícios foram observados para indivíduos que consomem 25 a 29g por dia.

Cereais e Grãos Integrais 

Maior ingestão de grãos integrais foram associadas à redução de 13 a 33% no risco para todos os desfechos  analisados.  O que  para  mortalidade por todas as causas e incidência de DAC traduz-se em 26 mortes a menos e sete casos a menos por 1000 participantes ao longo da duração dos estudos. A qualidade dos dados relativos à incidência de câncer colorretal é moderada, enquanto que para os outros desfechos é baixa devido à alta heterogeneidade não totalmente explicada pela análise de sensibilidade.

Em relação à dose-resposta para cereais integrais, o consumo de 15 gramas ou mais por dia está associado à resultados positivos em relação a  mortalidade total, DAC, diabetes tipo 2 e cancêr colon retal.

Índice Glicêmico 

Uma redução de RR de 11% (IC de 95% 3-18) na incidência do diabetes tipo 2 foi observada para indivíduos que consomem dietas de baixo índice glicêmico. No entanto, a análise de sensibilidade alta heterogeneidade atenuou a redução do RR para 5% (IC de 95% – 13 a 4).  A redução de 10 unidades de índice glicêmico na dieta foi considerada como marcador desta análise.

Resumo dos principais resultados dos ensaios clínicos

(A) Comparação entre dietas com maior e menor ingestão de fibra total.

A

(B) Comparação entre dietas com maior  e menor  ingestão de grãos integrais.

B

(C) Comparação de dietas caracterizadas por menor IG em comparação com alimentos com maior IG.

C

Considerações

1) A maior ingestão de fibra alimentar total ou grãos integrais foi associada à redução da incidência e mortalidade por várias DCNTs.

2) Maior ingestão de fibra dietética reduziu o peso corporal, colesterol total e PAS.

3) Os resultados dos estudos dose-resposta suportam que o efeito é causal sobre as doenças cardiometabólicas.

4) Informações de dose-resposta mostra redução em todas as causas de mortalidade (total e por câncer).

5) A ingestão de fibra dietética total não deve ser inferior a 25–29 g por dia com benefícios adicionais para  consumo  acima  de 30 gramas.

6) Globalmente o consumo de fibra é de 20 gramas ao dia.

7) As fibras de cereais foram as maiores contribuintes para o % de  fibra total nos estudos analisados. Dados sobre alimentos  (frutas, leguminosas, hortaliças)  e/ou  fibra solúvel ou insolúvel  foram  limitados  nos estudos  incluídos.

8) Grãos integrais tiveram resposta semelhante ao consumo de fibras e teor de fibra dietética. Por possuírem altas quantidades de fibras quando menos processados.

9) Os resultados referentes ao Índice glicêmico foram de baixa qualidade e os  de carga glicêmica não tiveram relevância neste estudo mas não devem ser desconsiderados da prática clínica.

10) Outros autores apontam que o consumo de 200g à 800g de hortaliças e  frutas estão associados à redução dos desfechos e são dose dependente.

11) Os mecanismos pelos quais as fibras atuam na  saciedade, microbiota e no eixo intestino cérebro como um todo devem ser considerados além dos efeitos protetivos contra agressores e xenobióticos.

12) Alto consumo de fibras pode reduzir a absorção de micronutrientes e deve ser avaliado individualmente.

13) Alguns alimentos com índice glicêmico baixo podem  ter adição de frutose ou sacarose e gorduras saturadas, o que prejudicaria o efeito positivo das fibras, na microbiota.

14) Políticas nacionais de alimentação e de redução das DCNT devem ser consideradas para que a população aumente o consumo de fibras e que os resultados sejam efetivos na mortalidade com  impacto positivo nos serviços de saúde.

Por

Leticia de Lima Silva

Estagiária de Nutrição e Marketing 

Dra. Silvia Ramos

Nutricionista

CRN3: 10908

 

REFERÊNCIA:

REYNOLDS, Andrew; MANN, Jim; CUMMINGS, John; WINTER, Nicola; METE, Evelyn; MORENGA, Te. Lisa. Carbohydrate quality and human health: a series of systematic reviews and meta-analyses. 2019. Disponível em: <https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(18)31809-9/fulltext>. Acesso em: 07 mar. 2019.

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